terça-feira, 22 de setembro de 2026

Despretensiosamente

Me parece às vezes que a rotina, áspera e familiar,
me embaça um pouco a sensibilidade
de perceber as belezas cruas das coisas banais

Por sorte - e com alguma frequência -,
respiros de uma poesia desavisada do dia a dia
me tiram o véu que cobre as sutilezas da vida

e dá pra voltar a sentir um pouco mais
e dá pra lembrar que posso viver os dias
e não o contrário
e dá pra me deliciar do espontâneo,
tão necessário quanto raro,
de uma coisa que puxa a outra

E me deixo surpreender com as cores, cálidas e inéditas, das tantas distâncias que se anda quando não se pretende chegar a absolutamente lugar nenhum

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Aproveitando que choro

Não cheguei a chorar por você
Chorei pela falta de todas as coisas que eu não tenho
Sem saber, na hora, apontar nenhuma delas
E fiz pesar em você o peso tanto das minhas ausências poucas

Mas chorei, sim, pela falta sua
Sem nunca sequer tê-lo tido aqui
Chorei por tudo aquilo que você poderia vir a ser
Mas que nunca seria se, de fato, o pudesse

Chorei como se te conhecesse,
como se te tivesse tido e logo perdido
E por ter realmente perdido sem nunca ao menos ter-te tido

Sonhei com você num cenário sem sentido
Como todo o choro que te dediquei até aqui
É, você, o vazio de todo o afeto que me falta
E que não paro pra sentir até sentir a falta que inventei que me faltava

No fim, não é só você que eu sinto faltar
É o amor que me saiu pela porta entreaberta de mim, sem se despedir
Pelo simples fato
de sequer ter chegado a chegar

(apesar de falar de choro, esse não é um poema triste, pode voltar e ler de novo) 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Minha fé leviana e preguiçosa nas coisas

Sozinha numa inquietude familiar e inofensiva 
me atravessam os pensamentos tantos
E o cansaço que me fecha os olhos 
é o mesmo que me tira do papel as palavras precoces do que ainda ia dizer

Minha rotina é um bater de asas, apressado e urgente, de infinitas borboletas, se trombando toda vida
É como os passos firmes e ritmados de um sapateado até tarde, afoito e disciplinado
Como as folhas que se amarelam ainda nas árvores e já querem se deixar fugir
O dedilhar apressado e cuidadoso de quem aprende um instrumento novo no domingo
Ou a fé leviana com que se pula sete ondas no réveillon

Venho sentindo a pressa das coisas
e acabo vivendo um pouco nas conquistas que ainda não encontrei
Venho querendo mais do que penso que posso
e acabo por ter notícias boas 
Enquanto escovo os dentes pra sair,
Na segunda da semana que vem,
Num e-mail inesperado que nem sabia que ansiava,
Durante uma conversa preguiçosa com a minha mãe

Os dias têm sido uma confusão fértil e exaustiva e gostosa e exigente
da imensidão do que eu quero com tudo o que já venho sendo
Acordo cedo sem pensar duas vezes
E já vivo bem menos no amanhã

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Eu, hoje

Eu, hoje, acordei suja
da tua purpurina insistente
Que me colou na pele um mar cintilante de cor, vibrante de ti

Acordei quieta de pensar no ontem 
Numa melancolia lúcida e madura de saber que não posso estar
E daí chorei demorado, fantasiada de uma esperança urgente

Como se pra acelerar o processo inevitável de cura das dores do amor,
o vento, que corria apressado, me secava as lágrimas 
tão logo conseguiam escorrer por entre os cílios coloridos
e, então, era como se nem tivesse sido triste outra vez

A solidão, sabida da falta tua,
rodeada de carnaval,
Me fez lembrar que não sei brincar de mais ou menos
E a viagem até em casa nunca foi tão sóbria
pra me trazer de volta os pés pro chão frio e irregular da nossa verdade

Eu, hoje, acordei sua
Da tua presença oscilante
Que, esquecida, me cobre de uma saudade quase infantil
e me faz ficar