quinta-feira, 19 de setembro de 2019

As coisas, todas elas

Eu sou um bando de borboletas barulhentas e descuidadas, esbarrando umas nas outras
Sou o choro da vizinha envelhecida que viu o filho partir pra longe de si
Sou a facilidade que as pessoas tem de esquecer o nome dos outros
E o riso raso de quem não sabe nada e de ninguém
Sou as folhas de um arbusto jovem com pretensões de uma árvore troncuda

Posso ser o vento que leva os pássaros pra não sei onde,
pra onde eles querem ir
E um pula-pula colorido que faz voar as crianças felizes, pelos ares de mim
Eu sou um tanto de coisas vãs e imprescindíveis,
abstratas e bonitas e que as vezes não se pode entender

Sou tudo o que fui e a potencialidade do que ainda não cheguei a ser
Eu sou o tempo que eu preciso pra me esparramar no céu, as folhas todas verdinhas
E me visto de cor, inconstante e apaixonada,
Pra me encontrar qualquer dia
Enorme e primaveril
Cheia de mim


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A inconsistência da auto-compreensão e eu

Quando todos meus lados se encontram em leveza e compreensão, isso é amor
Eu me tento entender e me perdoo os pesos, as faltas, a insensatez
Me quero sã e perto de mim
Quero, a mim, mais do que nunca

Eu canto nas manhãs e quando estou só
Nos dias mornos e na rua acelerada
Estou mais em mim do que o normal
E quero mais do que antes

Me carrego no colo, os olhos cansados de tanta perda de tempo
Eu quase nunca preciso das coisas que eu invento
Quase nunca eu me perco e encontro tanto assim

Num dia ensimesmado do inverno, numa curva comum, no horário comercial
Eu me vi com a sensibilidade de ver os outros
E soltei os nós que me prendem os pés no chão, que me acomodam no fundo das coisas
Me encantei com a superfície de mim
e chorei, aliviada, os risos perdidos que deixei cair

Descobri que fui dias calmos demais e sentimentos preto e brancos,
Mergulhada numa vida pouca, em um eu encolhido e raso
Fui abismo e falta de ar,
De tanto correr atrás
De nada mais
Que eu