sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Eu nas minhas curvas

Toda vez que eu penso um pouco mais, me acabo perdendo nas esquinas de mim. E chego tarde.
Toda vez que eu tento um pouco mais, me estrepo nas pedras portuguesas das minhas expectativas infantis. E sofro um pouco.
Eu, quando espero demais, acabo sabendo cada vez menos. Pra sentir muito as coisas todas.

Me coloquei numa capa transparente que me permite e me nega o mundo ao mesmo tempo. Sem querer. A Debora diz que é proteção. Eu acredito.
Me protejo de tudo e me nego gostar profundo. Durmo pouco, sinto muito e me distraio o tempo todo.
Os dias me atravessam, um por um, incômodos e constantes e deliciosos e insuficientes.

Eu me conforto na nostalgia e na novidade das coisas.
Escrevo distante de mim, quase que nem todo o resto.
O banho quente me espera antes de dormir. Que bom.
Minha mãe me perguntou da vida. Fiz ela rir um pouco.

Os dias tem sido quentes até quando não faz calor.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Acordei só de manhã

O rio fundo da vida, revolto e maternal, me transborda as novidades
Encharco os pés num gostar tranquilo
Não penso mais em precipitar

As margens de mim já não cabem mais
E me dói um pouco crescer pra sempre
Ao mesmo tempo que me alivia
poder estar distante de antes

Finjo uma leveza que também é minha
Mas que se esconde quando te ve
Me preocupam menos as coisas todas
E já não me inquieta mais tanto a incerteza

Sonhei com você do jeito que você é, quase não era sonho
Acordei sorrindo, sofrida
Sonhei que era muito muito fácil 
E que eu me deixava viver

O tempo ainda me olha, ansioso
Do espelho do meu banheiro quando bate sol
Da grade do meu vizinho da frente
Do outro lado da vida
Hoje, amanhã e semana passada

Mas hoje eu cantei na cozinha
E não andei pesada quando saí
Me cansou menos falar do que me falta
Lembrei da gente nas ladeiras de madrugada

Hoje eu dormi a noite inteira
Aceitei um pouco o agora da vida
E nem acordei pra fazer xixi