segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Narrações da vida divina de Aurora desaparecida

      Era um senhor enjuvenecido, de braços magros e pernas fortes, marcado pelo privilégio de ser quase santo e com os olhos tão profundos que mal enxergava o mundo real. Um dia tinha aparecido com uma filha num dos braços, mergulhada entre treze mantos diferentes e, só de se olhar para ela, já se sabia que ia ser a moça mais bonita do mundo. Ele nunca revelou a ninguém seu nome e ninguém sabia nem se o tinha se esquecido de escolher, mas foi de Aurora que começaram a chamar a menina de cabelos cor de cobre que parecia mais ter nascido dos céus.
      Perdida nos misticismos da perfeição, Aurora cresceu confusa e com o costume de andar na ponta dos pés. Todos a observavam bailarina desde os seis anos de idade, mas viam a estranheza do hábito como uma manifestação, de dentro pra fora, de sua leveza interior. 
      Parecia que desapareceria no ar a qualquer momento, translúcida às realidades, tal era a perfeição inquietante de seus gestos de outro mundo.

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