quarta-feira, 11 de março de 2026

Minha fé leviana e preguiçosa nas coisas

Sozinha na inquietude familiar e inofensiva do meu quarto
me atravessam os pensamentos tantos
E o cansaço que me fecha os olhos 
é o mesmo que me tira do papel as palavras precoces do que ainda ia dizer

Minha rotina é um bater de asas, apressado e urgente, de infinitas borboletas, se trombando toda vida
É como os passos firmes e ritmados de uma sapateado até tarde, afoitos e disciplinados
Como as folhas que se amarelam ainda nas árvores e já querem se deixar fugir
É o dedilhar apressado e cuidadoso de quem aprende um instrumento novo no domingo
Ou a fé leviana com que se pula sete ondas no réveillon

Venho sentindo a pressa das coisas
e acabo vivendo um pouco nas conquistas que ainda não encontrei
Venho querendo mais do que me acostumei
e acabo tenho boas notícias, mais do que sei
Enquanto escovo os dentes pra sair,
Na semana que vem,
Num e-mail inesperado que nem sabia que ansiava chegar,
Durante uma conversa preguiçosa com a minha mãe

Os dias têm sido uma confusão fértil e exaustiva e gostosa e exigente
da imensidão do que eu quero com tudo o que já venho sendo
Acordo cedo sem pensar duas vezes
E já vivo bem menos no amanhã

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Eu, hoje

Eu, hoje, acordei suja
da tua purpurina insistente
Que me colou na pele um mar cintilante de cor, vibrante de ti

Acordei quieta de pensar no ontem 
Numa melancolia lúcida e madura de saber que não posso estar
E daí chorei demorado, fantasiada de uma esperança urgente

Como se pra acelerar o processo inevitável de cura das dores do amor,
o vento, que corria apressado, me secava as lágrimas 
tão logo conseguiam escorrer por entre os cílios coloridos
e, então, era como se nem tivesse sido triste outra vez

A solidão, sabida da falta tua,
rodeada de carnaval,
Me fez lembrar que não sei brincar de mais ou menos
E a viagem até em casa nunca foi tão sóbria
pra me trazer de volta os pés pro chão frio e irregular da nossa verdade

Eu, hoje, acordei sua
Da tua presença oscilante
Que, esquecida, me cobre de uma saudade quase infantil
e me faz ficar