terça-feira, 23 de março de 2021

Me pareceu uma boa ideia

Gosto de quem confia o sono aos outros
Descansa nos meus braços, nas pernas, na barriga
Se deixa adormecer em mim
Eu gosto do conforto de merecer, assim, o sono de alguém
E da calma que é sentir a calma de ti

Gosto de ter muitos carinhos de uma vez
De trocar as horas, as simplicidades
Nunca fui boa com nomes,
Deixo-os escapar tão fácil quanto todo o resto

Cismo em gostar tudo de uma vez só
E me estrepo que nem o amor de Andrade 
Logo me percebo com os pés no chão
E já não tem mais paixão, nem pressa

Vivo em mim, desperta
Não me descanso em ti, atenta
Sem querer mesmo
Não durmo em ninguém a não ser em mim

Discreta, aberta
Me pareceu uma boa ideia pintar os olhos pra te ver de perto
Esqueci que sempre estamos longe demais

Não sei falar perto de você: a razão se esconde por um tempo


Eu, nos detalhes

Eu sou muito de tudo
E muito pouco

Sou o salto descuidado de uma bailarina iniciante
O som de duas folhas de papel de um livro breve, uma na outra
Sou a dificuldade que a gente tem de matar mosquito
O buraquinho na ponta da agulha, difícil de acertar

Eu sou a luzinha acesa no canto de um quarto de criança
A marca dos pés no chão da sala, que acabou de limpar
Sou o conhecimento infantil de quem começa a aprender de si
Um mapa complicado que ninguém entende, cheio de linhas azuis

Uma rua cheia de árvores, gostosa de caminhar
Eu sou um rio que não sabe onde vai dar
E o cansaço de subir uma rua aladeirada num dia de verão

Isso tudo pra poder ser eu, apenas, nos detalhes 


Transbordo de vez em quando

Quero poder agarrar o céu,
azul e cinza ao mesmo tempo
Mas não tão perto
pra não perder a graça

Quero me ter atenta
Mas só um pouco,
pra não morrer o a toa da vida
E andar descalça, descuidada do chão

Queria ter uma escada comprida, alta toda vida
Pra subir o quanto der
E ver de tudo miudinho
Perder o chão,
mas de propósito 

É que a gente se apressa nos dias e nas pessoas
E se demora nas coisas e nas dúvidas,
inúteis de não servir pra nada mesmo

Mas no fim me esparramo toda, eu nos meus caprichos
Me encaixo cada vez mais
no espaço que eu deixo pra mim

Não é que eu não saiba das coisas
Só não sei com certeza das margens de mim
E transbordo de vez em quando