terça-feira, 27 de outubro de 2020

As verdades de mim, lá e aqui

Lá eu faço muito, quase tudo
Aqui, penso toda vida
Rasa em amores contidos, numa rotina tímida de casa na árvore
Saudosa dos calores urgentes e veranis

Fugi daqui por um respiro
Cheguei em ti sei lá por que

Tenho andado muito em mim, numa dança improvisada
Eu me encanto toda, confete sem rumo em qualuqer carnaval
Eu sinto em enfim, bem como tem que ser

Eu me quis sentir, de uma vez só
Quis ficar na vida, me arrepiar inteira
Apostar corrida sem saber do fim

Se eu sair na chuva, molhada de cor
Se eu ficar deitada, num amor alongado
Ou quiser ser leve, me pintar de tudo
Talvez eu seja e só, tão viva que dói

Posso querer lembrar e esquecer
E ir e vir, num embaraço descuidado
Eu posso me curar dos meus anteontens
E arriscar todos eles se eu achar que sim

Entrei numa ciranda de coisas caprichadas,
sem querer ou querendo mesmo
Me achei numa vastidão alaranjada, amor do sol com o céu
Me apego a tudo e a tão pouco, sou mil pedaços de mim

Eu sou os caminhos improváveis de um rio atravessado
Sou a multidão barulhenta numa feira de fim de semana
Eu sou o som da água quando se nada no mar gelado
Sou o colorido dos olhos de alguém que enxerga os outros
Uma viagem bonita que se faz a pé
Sou o amor aos poucos, de quem não tem pressa
E a potencialidade de tudo o que eu quero ser


domingo, 14 de junho de 2020

E deus não apareceu

Penso nas pessoas
Amontoadas numa asfixia louca de dentro de si
Ensimesmadas numa distância funda,
distraídas do mundo real

A rua é proibida
O vento vem tentando soprar os soluços pra longe
Uma ignorância comprida atravessa as rotinas retorcidas
Cobre os olhos
Morde as unhas
Encolhe os ombros e a razão
Rima as coisas com saudade e não sabe mais aonde ir

Finge que não entendeu
Se enfia nas pessoas

As vidas enormes na televisão
Fazem a gente chorar
As pessoas pequenas nos números grandes
Já não são quase ninguém
Com as bocas congeladas num medo sem fim
Num escuro seco que não me deixa sentir
Numa peneira do tamanho dos brancos, verde e amarelos

Os números do jornal não brincam mais
E as caras feias e invisíveis
murcham e somem nas filas do céu

Li um trecho de manhã,
Ri sem perceber,
Almocei com uma fome de ontem,
Escrevi caída em mim

A história é uma loucura
O deus de vocês é imperdoável

A vida é tão importante que dói