segunda-feira, 30 de julho de 2018

Um flutuar translúcido e inquieto e atemporal

Era um rapaz alto e distraído e excepcional, mal andava com os pés no chão. E tinha o costume de pensar em coisas que as pessoas, geralmente, não se deixam pensar. Se debruçava, mentalmente, por cima dos montes de ideias a catar alguma que lhe tirasse o sono, extensa o suficiente pra distraí-lo por horas.
Não aguentava estar quieto, o sentir-se calmo lhe desconcentrava. Ele precisava das dúvidas e incertezas que nasciam dos novos pensamentos, como crianças pequenas que nunca saíam da fase dos "por quês", ou uma faísca inicial que movimenta toda a máquina do eu.
Um dia avistou, num canto de si, o tempo, tímido e impensado. Será que o tempo realmente passa? A vida, que se conta em dias e horas e anos, poderia ser contada de outro jeito? Suportariam, os seres humanos, enxergá-la como um desenrolar contínuo de acontecimentos, sem que se dividisse a rotina em qualquer intervalo de tempo? Haveria rotina?
A vida e as pessoas e ele próprio eram muito mais do que um somatório de dias e noites e tempo. Eram um todo de complexidades, um amontoado de sentimentos e racionalidades, uma sequencia de ligações umbilicais e amores em graus infinitos.
Como é bonito sentir coisas que não se pode explicar. 
E chorou por alguns instantes. Não saberia dizer quantos, se desvencilhou dos minutos pra se agarrar às paixões e as vidas em si. 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A simplicidade precoce de quase-amores infantis

Ela queria poder falar da simplicidade das coisas, da leveza que se tem diante de uma alergia pontual e desconsertante. Tentava compreender as frases de um livro em sua imensidão integral, imaginando o que teria levado o autor a escolher aquelas palavras no lugar de tantas outras.
Queria poder acariciar alguém que mal conhece, só pelo simples querer, ou beijá-lo nos olhos e nos ombros e nas orelhas, sem que isso parecesse esquisito ou romântico demais. Era uma questão de expressar-se plenamente o amor em si sem se preocupar com as construções sociais que tolhem as pessoas e as constrangem a um amar murcho e ensimesmado.
Além disso, ela costumava olhar as pessoas nas ruas e imaginar seus pesos e alegrias e toda a história que carregariam consigo, como uma enorme sombra colorida presa a seus calcanhares, um amontoado de sonhos e hábitos e vastidão. Quais seriam suas dores e amores? Teriam esses desconhecidos sensibilidade para compreender o olhar dela sobre eles? Poderiam eles sentir sua empatia?
As vezes ela sentia uma necessidade enorme de cuidar das pessoas; pegá-las pela mão e amá-las em pequenos atos, como na noite anterior quando conduziu um menino que vendia balas na rua até um restaurante e pagou-lhe as duas próximas refeições.
E, muito por isso, gostava de fazer carinhos. Simples assim, acariciava as pessoas de quem gostava, com delicadeza e empenho, como se querendo transmitir, através do toque, todo o afeto dentro de si.
Era um amar fácil e descuidado, como uma folha amarelada que se solta de uma árvore cansada e se entrega ao vento, dançarina pra longe dali.