sábado, 3 de maio de 2014

Correspondências inconvenientes de um amor que se deixou levar

Foi pouquíssima quando da despedida. Esvaziou os olhos como se para combinar com o sorriso raso que seria seu a partir de então. Ela passava por entre as pessoas, à salvo dos esbarrões sabe-se lá como, tal era seu grau de distração, observando as vitrinas quase como se para fingir a si mesma que todas as vidas podiam continuar parecendo, a ela, rotineiras, como sempre haviam sido e como haveriam de permanecer sendo.
Atravessando o parque cercado por uma fileira de jaqueiras tão imponentes que quase tinham vida própria, apanhou entre as mãos em concha um punhado de uma terra fina e pálida, tão frágil ao curso das vontades do vento que decidia seu destino por entre as estradas do ar. Sentada na terra com as pernas cruzadas e apoiando-se em uma das raízes centenárias que mergulhavam no chão, viu os grãos se desvencilharem da breve prisão pelas frestas entre seus dedos infantis.
Formidável como as coisas se vão tão depressa.